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Tire o seu ódio do caminho, vamos passar com nosso amor

Por Carol Vergolino – codeputada das Juntas e mãe de uma menina de 10 anos

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Era tarde de domingo e como boa tarde que finda, chamava bolo e café. Era esse o movimento em quarentena com meu companheiro, nosso filho pequeno e a minha menina de 10 anos. Companheiras do movimento feminista me ligam. Vem que o horror está em frente à maternidade onde a menina do Espírito Santo, de 10 anos, está fazendo o aborto legal e seguro. De pronto já estava lá, representando nossa mandata e cinco horas se seguiram, com cenas que não consigo esquecer, que embrulham o estômago e martelam no juízo.

Cristãos, evangélicos e católicos, com terço na mão e ódio nos olhos, tinham acabado de chamar a menina e médicos de assassinos. Ela precisou entrar para fazer o procedimento na mala do carro. A menina do Espírito Santo de 10 anos entrou abraçada a um ursinho de pelúcia, tentando agarrar um infância roubada pela violência sexual que sofria desde os 6 anos. Como ela, a cada hora, quatro meninas de 10 a 13 anos são estuprados no Brasil, dados do 13o. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Quatro a cada hora. Como ela, a cada dia, seis crianças precisam fazer o aborto legal e seguro. Seis a cada dia.

Enquanto pessoas rezavam alto pra ela ouvir, eu rezava em silêncio pra ela não ouvir. Para que a tortura a que ela já estava sendo submetida há anos pudesse cessar. Tortura que fez ela viajar mais de dois mil quilômetros para ser atendida aqui em Pernambuco. Tortura fruto do machismo que estupra, do patriarcado que impede que ela tenha acesso à legislação vigente no Brasil desde 1940, que autoriza o aborto legal m seguro quando há risco de vida e quando a gravidez é vítima de estupro. A menina de 10 anos estava duplamente protegida pela lei, mas absurdamente vulnerável ao ódio dos que vazaram informações sigilosas como seu nome, endereço e local do procedimento, aqueles que pregam amor com terço na mão e ódio nos olhos.

Tortura pública de um país que deveria proteger essas meninas, mas que tem uma Ministra de nome Damares que traz a público a história de uma menina de 10 anos, sem respeitar o artigo 17 do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, que versa sobre a inviolabilidade da integridade das crianças abrangendo a preservação da imagem. Perdoa menina do Espírito Santo, eles não sabem o que dizem e fazem. Ou o pior, sabem. Mas eles não são a totalidade dos cristãos, nem são os donos da fé. O Papa Francisco já pediu a todos que parassem de instrumentalizar as religiões para incitar o ódio.

Mas não eram só fieis. Havia deputados, Joel da Harpa e a deputada Clarissa Tércio, ambos da bancada evangélica fundamentalista, incitaram seguidores das suas igrejas a estarem no local. Havia também grupos ligados à Igreja Católica, grupos ultra conservadores. Os deputados lá presentes tentaram invadir o hospital se utilizando de prerrogativa de imunidade parlamentar, não usavam máscara infringindo o decreto que eles mesmos votaram e aprovaram na casa legislativa e exibiam sorriso no rosto digno dos piores filmes de terror. Como aqueles deputados tinham informações sigilosas? Na audiência pública na semana seguinte, a deputada Clarissa Tércio informa no seu discurso transmitido ao vivo o sexo e peso do feto, o procedimento feito, sem o menor constrangimento por divulgar informação sigilosa. Já o deputado, entre outros impropérios, diz que quem causou aglomeração foram as feministas.

Nós feministas queríamos ter ficado em casa. Nós nunca queríamos ter que ter visto e vivido tanto horror. Eu tava com a água do café que nunca tomei, na chaleira. Jamais queria ter ido colocar meu corpo na frente de deputados que nem máscara usam, para que não invadissem hospital. Mas nós feministas não vamos deixar o horror avançar, nós não vamos recuar na implementação dos direitos conquistados há mais de 80 anos. Nós não vamos calar frente ao fascismo nem à misoginia, vamos exercer nosso poder político para proteger e tentar salvar vidas.

Nós feministas de diversos fronts nos juntamos em frente ao hospital, fizemos um cordão humano, fizemos vídeos, postagens e jograis e denunciamos para o mundo o horror. Durante a semana, trabalhamos sem parar. Cada uma na sua especialidade: as médicas dando entrevistas, as cineastas fazendo filme, as advogadas escrevendo peças, as jornalistas escrevendo matéria, nós das Juntas Codeputadas no legislativo pedindo cassação dos mandatos dos deputados fundamentalistas e todas nós fazendo política. Muita política todos os dias para salvar essa menina de 10 anos, mas também para que todas as mulheres tenham direito ao aborto legal e seguro, para pautar o aborto para todas as mulheres e para combater o fundamentalismo religioso.

As mulheres feministas de Pernambuco que estiveram lá e que trabalharam essa semana inteira são fruto de muita luta. São fruto de décadas do movimento feminista atuando com força e organização no nosso Estado, uma força coletiva e de aliança potente entre vários movimentos e coletivos. Todas nós sabíamos o que fazer e o que dizer. Fizemos e dissemos. Colocamos toda a nossa força política feminista em confronto com as forças fundamentalistas da extrema direita. O mundo viu, estarrecido, quem essas pessoas são.

Nós feministas que temos a pauta do aborto como fundante. Sempre lutamos por nossos direitos sexuais e reprodutivos, lutamos para que as mulheres tenham autonomia sobre seus corpos, tenham direito a educação sexual nas escolas, tenham acesso a contraceptivos gratuitos e possam realizar o aborto quando necessário e não sejam criminalizadas por isso.

No Brasil, 500 mil mulheres abortam por ano e 250 mil precisam ser internadas vítimas de abortos inseguros. Obviamente que nesse país racista, quem morre é a mulher preta e pobre; sabemos que a branca e rica consegue pagar por um aborto clandestino, mas não sem sofrimento. Nenhuma mulher quer abortar, às vezes, mulheres precisam. A cada minuto no Brasil, um procedimento é realizado, uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já realizou um aborto. Esses dados da Pesquisa Nacional do Aborto 2016 são impressionantes, apesar da certeza da subnotificação.

Nós queremos que todas possam ter esse direito. Nós queremos que no SUS, como no CISAM e sua equipe muito comprometida com essa luta, possa fazer abortos legais em todas as mulheres que precisem; nós queremos que os fundamentalistas tirem seu ódio do caminho que nós vamos passar com nossos corpos; nós queremos que o aborto seja legalizado no Brasil e assim, como aconteceu em todos os países do mundo, os números diminuam já que junto com a legalização vem politicas públicas que evitam a gravidez. Nós queremos que as nossas meninas tenham direito a infância, que não sofram violência.

Nós queremos que essa menina do Espírito Santo, de 10 anos consiga reconstruir sua vida marcada a ferro e fogo com o ódio do machismo, desde quando era estuprada aos seis anos, até agora que precisará trocar de nome, de cidade, de escola, de amigas.

Quando cheguei em casa naquela noite de domingo, minha filha de 10 anos me esperava com o mesmo pedaço de bolo daquele fim da tarde e me perguntou porque demorei tanto pra voltar. Como um hiato do tempo. Não tive coragem de contar a ela onde estive, o que vi, o que estava sentindo. Só fomos dormir abraçadas e agradeci a todas as Deusas porque minha filha de 10 anos estava ali protegida e me comprometi, na minha reza, cada vez mais com a luta política feminista para que todas sejam livres. Nossas meninas e nossas mulheres. Avante!

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