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Dororidade, o que é? Ou que pretende ser?

Por Vilma Piedade

Dororidade, o que é? Ou o que pretende ser?

Entendo como a Dor e a nem sempre delícia de se saber ou de não se saber quem é... quem somos numa sociedade mascarada pelo mito da democracia racial...Nossa História Importa... Nosso Turbante Importa.... Nossa Vida Importa!

Dororidade quer falar dessas sombras. Dessa fala silenciada, dentro e fora de Nós. Da Dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta... Falar da ausência expressiva das Mulheres na Política e nos espaços de Poder...Mulheres Negras então, nem se fala... Nesse meio tempo, o Conceito bateu asas, Dororidade virou livro e foi lançado pela Editora NÓS, Livraria Blooks, Botafogo, RJ, 2017. Mas, vamos ao texto...

Por que é apostando no Diálogo, na Escuta, no Feminismo Dialógico Interseccional que me coloco como Mulher Preta no Feminismo. Minha escrita, minha escuta, minha fala, trazem a marca das aberrações que o Racismo nos imprime e nos empurra goela abaixo no cotidiano.

"E aí? Será que pode haver Diálogo Feminista e uma Democracia Feminista num País que vive ancorado no Mito da Democracia Racial? Ou pode. Acredito que sim. É possível."

Quando penso em Diálogo, na construção de um Feminismo Inclusivo, preciso recuperar nosso princípio filosófico. UBUNTU. Eu contenho o outro. Somos Um. Somos Uma. O famoso... pegou prá uma... pegou geral. Nosso Princípio é circular como as Rodas de Xirê no Candomblé... minha Tradição.

E aí? Será que pode haver Diálogo Feminista e uma Democracia Feminista num País que vive ancorado no Mito da Democracia Racial? Ou pode. Acredito que sim. É possível.

A Democracia feminista pressupõe inserir mais Mulheres nos espaços de Poder. E Nós, Mulheres Pretas, estamos nessa. E aí, não podemos esquecer Sueli Carneiro quando aponta in Mulheres Negras e Poder; um Ensaio Sobre a Ausência: “a relação entre mulher negra e poder é um tema praticamente inexistente. Falar dele é, então, como falar do ausente”.

Então vamos ter que dialogar com essa ausência. Dororidade. Aí entra a PartidA. Márcia Tiburi no artigo publicado na revista CULT, nos fala:


... Atuamos no trabalho político próprio ao cotidiano, na cultura viva do dia a dia e, como um acelerador de politização, incentivamos filiações e candidaturas de feministas, pois acreditamos que a experiência política precisa acontecer dentro da história concreta. Uma campanha política é capaz de mudar o imaginário e a mentalidade das pessoas, independentemente de seus resultados.


Por isso, confiamos nos processos que constroem a política como base de todo o ambiente social – e ecológico – onde convivemos como seres humanos – e não humanos – a partir de nossas diferenças... Mas a PartidA é também uma ideia, um conceito político, isso quer dizer que ela está em aberto, pronta a ser pensada a partir da percepção das mulheres (em seu sentido ético, estético e político mais amplo) que, na consciência da questão de gênero, se tornam feministas.

Temos um grande desafio pela frente. Precisamos continuar a discutir essa questão - Feminismo. Racismo. Branquitude – Opressão e Privilégios. Acredito ser uma equação perfeita para a viabilidade da construção do Feminismo Negro. Do Feminismo Dialógico Interseccional. Da Democracia Feminista.
Buscando Angela Davis in Mulheres, Raça e Classe – “Raça, Classe e Gênero entrelaçados, juntos, criam diferentes tipos de opressão. Classe informa a Raça; Raça informa a Classe”.

" Diante dessa Dororidade histórica, precisamos trabalhar cada vez mais- Feminismo. Racismo. Branquitude – Opressão e Privilégios. Acredito que possa fortalecer a todas Nós. Pretas. Brancas. Mulheres."

O aumento do Feminicídio também é Preto por aqui... O Feminicídio só avança. Contudo, as Mulheres Pretas estão morrendo mais. Os dados oficiais reforçam que a morte das Mulheres no Brasil, tem Cor, tem Raça. Em 10 anos, de acordo com o último Mapa da Violência, do governo federal, a vitimização entre as mulheres negras no Brasil cresceu 54,2%, enquanto o homicídio das brancas caiu 9,8%.

Diante dessa Dororidade histórica, precisamos trabalhar cada vez mais- Feminismo. Racismo. Branquitude – Opressão e Privilégios. Acredito que possa fortalecer a todas Nós. Pretas. Brancas. Mulheres.


Digo Pretas e não Negras para não continuar alimentando a base estrutural da Opressão provocada pelo Racismo. Opressão causada por um conceito que se estratificou. Cristalizou. Raça - Construção ideológica, fabricada pelo modelo econômico capitalista Branco. Modelo que alimenta o lugar de acúmulo, dominação e privilégios.

Mas, muitas de Nós, Mulheres e Jovens Pretas, rompemos com o determinismo histórico imposto prá nossa População. O bicho pega e a Elite Branca não aguenta. Quando eu falei que Dororidade carrega, no seu significado, a Dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo, destaquei que quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa Dor, agravo provocado pelo Racismo. Racismo que vem da criação Branca para manutenção de Poder... E o Machismo é Racista. Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade.

Parece que nosso lugar tá dado, posto na sociedade. É estrutural. Mulher Preta é Pobre; Mulher Pobre é Preta .... com baixa escolaridade, ocupando a base da pirâmide no mercado de trabalho, pelo menos na sua maioria. Nesse ponto, recorro mais uma vez ao pensamento de Angela Davis: “precisamos pensar o quanto o Racismo impede a mobilidade social da população negra”

" Enquanto a faxina for preta, exclusiva das Mulheres Pretas, vamos ter que enfrentar esse desafio pós-moderno, colonizado - reafirmar a todo momento Quem Somos."

E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade. No nosso caso, a história é diferente.

O buraco é mais embaixo. Ou, parafraseando Lélia Gonzalez, ”Cumé qui é”, por que é o Racismo que nos dilacera.

É assim que entendo o Racismo. Dororidade. A Branquitude poderia ser um pouco mais criativa e se dar ao luxo de pensar que a história é mais dinâmica que as palavras. Demora. Mas a fila anda. E nossa fila andou, apesar da faxina ainda ter cor por aqui... Enquanto a faxina for preta, exclusiva das Mulheres Pretas, vamos ter que enfrentar esse desafio pós-moderno, colonizado - reafirmar a todo momento Quem Somos. E nem sempre basta. Pro Racismo não basta.

Vilma Piedade – Mulher Preta, Ativista, de Axé. PartidA Rio, AMB, RENAFRO

1 O Conceito "Dororidade", de autoria de Vilma Piedade, foi pela primeira vez apresentado no evento Feminismo, Racismo, Branquitude: opressão e privilégios”, em 20 de maio de 2017, no Rio de Janeiro, dentro da série “Diálogos Feministas” da Escola com #partidA, e foi desenvolvido no artigo “Dororidade … o que é? Ou o que pretende ser?", publicado publico em 19 de maio de 2017 no site da PartidA Em 20 de novembro de 2017, o Livro Dororidade foi lançado pela Editora NÓS , Livraria Blooks, Botafogo, RJ.

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