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Como sermos mais mulheres na política?

Por Carol Vergolino - codeputadas da mandata das Juntas Codeputadas

Acordar e pensar na Ágatha, em Vanessa Sales, mãe dela e na vida interrompida. Sentir falta de ar. Seguir o dia e pensar nas mulheres violentadas. Uma necropolótica, aquela que o Estado existe para descartar pessoas. Estamos na conjuntura difícil, de censura às artes, à ciência, dos retrocessos na política da autonomia dos nossos corpos e principalmente uma agravamento das desigualdades do país, que tem 13 milhões de desempregados e do aumento da fome. No sertão de Pernambuco nós voltamos a ver pessoas com a placa FOME na estrada. Nessa conjuntura de morte, precisamos nos manter vivas.

Não vai ser o meu corpo o primeiro atingido. A minha pele branca me favorece. A minha classe e minha situação de parlamentar também. Ao mesmo tempo, estamos expostas e isso tambem violenta. Estive esses dias com Manuela Dávila, com Taliria, Áurea, Mônica Francisco, as companheiras que estão em espaços políticos abrindo caminhos, como Marielle fez. Mas não queremos tombar, não queremos virar semente. Queremos nos manter vivas e trazer mais mulheres pra ocupar a politica institucional, para entrar no sistema e mudarmos ele por dentro. Não tem sido fácil, mas não tenho outro lugar para estar nesse momento historico. Como podemos ser mais? Quais os nosso desafios para o próximo ano?

Eu particularmente, sinto e penso como um espiral, uma mandala. A primeira quebra é a quebra da lógica individualista, para pensar no coletivo. Coletivo como fim e como forma. Ubuntu. Eu sou porque nós somos. Feminismo no fazer coletivo. O feminismo que mulheres negras exercem desde sempre, quando cuidam dos filhos das outras nas periferias, o feminismo que senta na calçada no interior no fim da tarde pra dividir e somar afetos, o feminismo que cuida da amiga doente, o feminismo que sente a dor das mães que perdem seus filhos negros, um feminismo popular.

Nem todo feminismo nos serve. Esse feminismo liberal que se apropria das nossas lutas mas que no âmago é excludente, esse não nos serve. O feminismo que vende camisa, mas não veste, também não. O nosso feminismo inclui.

Ele precisa pegar na mão da mulher negra. Ele precisa incluir ela na politica, no corpo das mulheres que estão no territórios, que sentem quando enterram seus filhos, que sentem quando morrem ou enterraram suas irmãs, com as amigas que ficam no caminho, as indígenas que com seus encantados cuidam da nossa natureza para que as do campo possam plantar, as trans que tragicamente só tem 35 anos de expectativa de vida.

Todas as mulheres juntas: brancas, negras, trans, lésbicas, indígenas, somos aliadas. Falar das mulheres trabalhadoras, as que estão mesma maioria no trabalho informal. Como as que vi no sertão fazendo pamonha para vender coletivamente. Todas produzem, todas ganham. Só será bom para uma delas, se for para todas.

Não é qualquer feminismo que nos serve. Nosso feminismo precisa ser diverso, incluir as mulheres trans, as mulheres negras, precisa incluir e respeitar as indígenas e seus encantados, precisa respeitar as religiões, precisa pensar nas trabalhadoras, nas que inventam suas próprias tecnologias para sobreviver. Um feminismo que entende a colonização dos corpos e pretende um novo marco civilizatório. Um feminismo que busca o bem-viver.

E a forma pode ser coletiva, com alianças amplas e com tecnologias inovadoras, que possam conectar pessoas e contar histórias. E a partir disso, reencantar pessoas pela política, pela luta e pelo bem-ver. E se precisamos ser mais, tem que ser bom, de novo a forma importa. Tem que ser sedutor, atrair. E tem que ser juntas e com afeto.

E quando chegarmos lá, como conseguir manter, com saúde mental, contra os ataques e ameaças, inversamente proporcionais à nossa força. Quanto mais potente formos, maior a força das ameaças, para nos calar, para nos asfixiar, nos amedrontar. E que dói, que nos humilham para que a gente desista, a violência que nos faz temer pelas nossas vidas e dos nossos e que matam.

Ai volto para mandala, para o espiral. Para curar e nos mantermos vivas de novo na política, precisamos voltar para a rede e nos cuidar. Uma das outras. Já sabemos que sozinha andamos bem, mas com as outras, andamos melhor. Aprender com as que abriram caminho, estarmos juntas e para 2020, sermos responsáveis com as mais que queremos ser.

E toda essa onda de conservadorismo vai passar. Podemos ser águia e voar para olhar de cima e ter paciência historica; podemos respirar fundo, mergulhar e nadar profundo e a onda vai passar. Precisamos proteger umas às outras e quando isso passar, chegaremos do outro lado com musculatura de quem nadou com a tsunami ou conseguiu voar com o vendaval.

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