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Café midiático com a bancada feminina

Fofos 'corações' nas fotos e nenhum avanço na pauta feminista

Por Juliana Romão*

O café da manhã de Bolsonaro com a Bancada Feminina no Palácio do Planalto, na última quinta-feira, foi uma anti-agenda de gênero. Organizado pela líder da bancada feminina na Câmara, a deputada Professora Dorinha (DEM-TO), o encontro contou com a presença do presidente do Supremo Tribunal Federal Dias Tofolli e de deputadas e senadoras de diversos partidos, à exceção das parlamentares da oposição (PT, PSOL), que recusaram o convite para participar do evento. Certamente anteviram o café puramente midiático, sem qualquer intenção de debater a agenda real das mulheres.

Era mesmo previsível, considerando que este é um dos governos com uma das menores participações de mulheres do mundo. Segundo o Mapa Mulheres na Política 2019, relatório da ONU e da União Interparlamentar, o Brasil ocupa a posição 149 em ranking de representatividade feminina no governo (em um total de 188 países). Temos apenas 9% de representatividade com Damares Alves como ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, e Tereza Cristina, na pasta da Agricultura. A média mundial é de 20,7% – a maior já registrada. Por aqui, além de ausentes da gestão, as mulheres enfrentam um movimento ostensivo de combate à agenda de igualdade de gênero.

Numa fala breve, repleta de estereótipos e amenidades propositalmente distanciadas da histórica e diversa pauta feminista, Bolsonaro focou na exaltação à Dias Toffoli, pela decisão colegiada do STF de considerar inconstitucional o inacreditável trecho da reforma trabalhista (apoiada por Bolsonaro quando era deputado) que permitia o trabalho em atividades insalubres até para gestantes e lactantes. Sem conquistas no executivo para exibir no café, o presidente comemorou como vitória sua a decisão do Poder vizinho de preservar (com quase um ano de atraso) a saúde das grávidas no ambiente de trabalho.

"este é um dos governos com uma das menores taxas do mundo em participação de mulheres"

Às mulheres presentes, consideradas “convidadas especiais”, restaram decepcionantes frases como “A cada legislatura, a bancada feminina não só cresce, como fica mais bonita. E não estou sofrendo de cataratas não, pode ter certeza disso”. Ou “Obrigado a Deus por vocês existirem, por muitas vezes vocês são o norte para nós e o ponto de equilíbrio e a razão sempre fala muito mais alto ao lado das mulheres”. Confira o discurso completo. Ao final do encontro, a foto tão desejada pelo governo. Um registro-símbolo da construção de mais um vazio que essa gestão já coleciona.

Não nos interessam os cafés e jantares a serem estampados no twitter presidencial. Não vamos aprovar essa reforma da previdência, ou o pacote que seleciona quem pode cometer crime, muito menos a criminalização das lutas sociais. Queremos uma construção política que garanta a efetivação de uma agenda de direitos às mulheres diversas, enfrentando o sexismo e o racismo como caminhos para a justiça social. Precisamos avançar na cidadania para todas as pessoas. Todas. É por isso que lutamos por mais mulheres feministas na política. Nosso voto será sempre feminista.

*Jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora da inclusão de gênero na linguagem, membra da PartidA e co-criadora do projeto Meu Voto Será Feminista.

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